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  • Nell Morato

LIVROS EM BUSCA DE LEITORES

Atualizado: Abr 16

Por que eu escrevo? Quero ser lida!


Foi uma surpresa quando resolvi escrever um livro. Tantas lembranças aflorando na minha mente, como se estivessem dormentes, submersas na fumaça dos meus cigarros. E, então, de repente tudo ficou limpo, lúcido, claro, e os arquivos com as lembranças da minha vida, desde a infância, estavam ali, diante dos meus olhos, impacientes para serem vividas outra vez. Como? Como poderia reviver os momentos de alegria, de aprendizado, de dor, de angústia, de tristeza e de amor? Escrevendo… disse uma voz. Uma doce voz imaginária insistia que eu precisava escrever um livro.


Falava que eu precisava dizer o que sentia, sabia, amava e odiava… nem que fosse apenas para eu mesma ler e conhecer a minha essência. Saber quem eu era de verdade, na mais pura e nua intimidade da minha alma.


Uma vida com altos e baixos, erros e acertos e tantas coisas brutalmente arrancadas, perdidas. E de repente, não mais que de repente, os pensamentos se vão voltando para o lugar, ora aconchegante dentro do meu âmago. Tanta coisa a ser feita, quem sabe as palavras possam mudar alguma coisa ou tudo? Tantos já falaram que os livros mudam as pessoas. E cadê as pessoas para serem mudadas pelos livros? E cadê os livros para mudar as pessoas? É preciso procurar, andar pelos tortuosos caminhos da vida, em busca delas… Nas ruas, nos espaços públicos, batendo nas portas daquelas casas de belos jardins ou jardins pequeninos e toscos… Livros. Sempre livros. Focando em mudar as pessoas através da leitura, do aprendizado e do ensinamento a uma criança… duas, dez até chegar em todas elas.


Somos escritores! E temos o dever de mudar as pessoas! E andar juntos em busca de políticas públicas que atendam às necessidades da cultura e do aprendizado. Parar com as reclamações: ninguém compra livro; livro não vende; livro é caro e se vender barato demais vão achar que não presta; as editoras não querem escritores independentes, e assim por diante… Devemos esquecer das editoras. Escritor é aquele que escreve. Jornalista e repórter também são escritores. Não gosto de comparações, de cópias, de regras que só atrapalham a criatividade. Fico irritada quando alguém diz que o livro precisa disso ou daquilo, como índice, e todas aquelas baboseiras que alguns escrevem antes do principal. Livro precisa é de bom conteúdo. Usar corretamente a nossa língua portuguesa. Se contar uma história da vida real, que todos os fatos sejam exaustivamente conferidos… e se a ficção tomar conta do texto, use e abuse da criatividade, que não existe limite para um bom enredo. E depois… Bem, depois, vamos em busca de leitores.


Escritor não é celebridade, e muito menos imortal. Academia de letras não serve para nada. A maioria delas é só pompa e circunstância. Elas deveriam criar políticas de distribuição de livros, campanhas para espalhar livros pelas ruas. Levar os livros ao encontro dos leitores, dos pretensos leitores. Criar concursos para promover a poesia, tão amada poesia, tão abandonada e quase nada se vende. Temos que mudar o rótulo de que livro é caro. Temos que mudar o conceito de que livro é só entretenimento… é também uma relíquia. Que deve ser lido, degustado, relido, guardado a sete chaves para que as gerações futuras possam-se dele usufruir. Livro deve ser classificado como um tesouro, uma joia de incalculável valor, diante das vidas que poderá melhorar, mudar, ensinar…. Livro é o companheiro na solidão física dos corpos humanos.


Um programa de variedades da televisão aberta mostrou recentemente que o número de leitores no Brasil está crescendo. Lentamente, porém os dados não mentem, e um ínfimo crescimento pode ser constatado. E, também, que muitos não leem por falta de oportunidade. Isto é, se o livro não encontrar o leitor… Então, um livro está para uma pessoa, assim como uma pessoa está para um leitor. Se eles se encontrarem, por acaso, pelas ruas das cidades, fatalmente se apaixonarão um pelo outro.


Estou trilhando meu caminho. E antes de me entregar inteiramente ao meu âmago, para viver esse amor com meu íntimo, e espalhar as palavras há tanto tempo guardadas, ao som do Coldplay, “Always in my head, or Midnight or A sky full of stars”, na tarde do lindo domingo de outono, vou avaliando o que se oferece pela vida. O casal Walker divertindo-se em lua de mel nas ondas do Havaí, espera a narrativa de suas aventuras; enquanto a Nora, luta para se libertar, aguardando o momento de nascer das minhas palavras. Eles merecem melhores condições. Tanto a fazer pela literatura. Como se exploradores fôssemos, saímos em busca do nosso espaço e da mudança dos arcaicos conceitos. Antes dos meus personagens receberem a liberdade, muito por fazer para melhorar um pouco que seja, a realidade literária. Os livros precisam ir em busca dos leitores. Ensinando-lhes a apreciar a leitura, mostrando-lhes o crescimento na condição humana e social, ao adquirir conhecimento, para que no futuro os leitores saibam onde encontrar os livros. E eu, não vou fazer o que esperam de mim e sim o que eu quero… O que eu sou, sem medo de ser eu mesma.


Nell Morato

07/05/2017

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