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  • Nell Morato

SER OU NÃO SER… DE ACADEMIA.

Atualizado: Abr 16

Os amigos mais chegados sabem que não morro de amores por academias de letras, também que usei meu espaço no Facebook para críticas. É a minha opinião como escritora. Porém, vou abordar o assunto de uma maneira diferente e quem sabe, assim, poderemos contar com as tais academias para melhorar o cenário literário brasileiro.


Em 2014, início da vida literária, nenhum livro publicado e um conto que participava de uma coletânea em Lisboa, Portugal. Não era nada, menos ainda do nada que sou hoje. Uma amiga recebeu um “convite” para participar de uma academia, devendo desembolsar um valor que ela não tinha, e também não havia publicado nenhum livro. Passadas algumas semanas, recebi um “convite” para a mesma academia. Fui sondar para conhecer o processo seletivo. Não existia processo seletivo, nada a ver com as obras do escritor, com o seu trabalho no cenário literário, com sua contribuição à cultura brasileira. Pagando a taxa estipulada, seria o autor automaticamente empossado ou encadeirado – acho que o termo se encaixa melhor.


Eu, gaúcha, residente e domiciliada em Porto Alegre, ainda uma guriazinha na literatura, vou fazer o que, numa academia de letras no interior de São Paulo? Vestir uma fantasia e tomar posse de uma cadeira… Não serve de nada. E lá fui eu expor o assunto no Facebook, emitindo tão somente a minha opinião… É pompa e circunstância, não representa nada para o autor, sequer ajuda a vender livros.


Outras academias vieram me procurar, até que recebi um convite diferente pelo inbox do Facebook. Fiquei curiosa para saber do que se tratava e informei meu e-mail para esclarecimentos. Confesso que fiquei chocada com a proposta. O prêmio para o qual fui “selecionada” levava o nome de um poeta renomado. Sequer sabiam quem eu era e precisava enviar currículo. Além disso, não passava de uma festa de gala no interior de um “estado” - riquíssimo em história e cultura, onde o prêmio seria entregue. Na papelada recebida com instruções, sugeria hotel e até salão de beleza para ficar elegante para a festa de premiação. Aí então, fiquei imaginando as comissões, a rede por trás de toda a pompa e circunstância da tal festa, que tinha ainda outras opções de participação monetária, digamos assim. Minha indignação me levou a espinafrar o autor do convite no inbox do Facebook – tamanha a vergonha que eu sentia naquele momento, optei em não divulgar o assunto.


Há poucos dias, lendo no feed de notícias do Facebook uma escritora comentando sobre um prêmio recebido daquele “senhor”, fui espiar como andavam as coisas por lá… E parece que uma escritora reclamou de tanta cobrança e alguns estavam consolando-o nos comentários de um post, onde um autor dizia que “tudo é cobrado, até o ENEM, precisa ser pago taxa de inscrição”. Levei um choque com esse comentário. Como comparar o ENEM, que garante vaga na universidade, de estudantes da rede pública, com um prêmio fajuto que não serve para nada?


Outra academia do interior de Pernambuco, convidando uma autora gaúcha para ser empossada acadêmica e ocupar uma cadeira na referida instituição. E eu pergunto: e os autores pernambucanos? Cadê os poetas de Recife e arredores? Poetas e romancistas do interior de Pernambuco? É absurdo convidar autores de tão longe, que nada têm a ver com a cultura do Estado. O investimento precisa ser feito em casa, com os de casa, com a cultura e a literatura de cada estado da federação.


Não sou contra academia de letras. Sou contra a falta de critério que quase todas estabelecem em seus estatutos. Deveriam honrar a sua cultura; prestigiar os autores de seu estado; promover cursos e concursos para divulgar a literatura dos seus membros; comprar livros dos autores participantes e/ou da cidade ou estado, doando para instituições de ensino, creches, orfanatos; ações para promover a leitura nas comunidades, junto às famílias para que possam ensinar os próprios filhos, que a leitura traz o conhecimento e o conhecimento poderá mudar suas vidas, seu futuro. Difundir a cultura do estado é importante para manter as raízes e as tradições de um povo.


E não sou contra os autores serem membros de academias. Sou contra o estrelismo, ainda mais quando temos tantos problemas na área da educação. Jovens e adultos que têm problemas com a língua, que escrevem mal, que não sabem ler fluentemente. Alguns poderão dizer: “não tenho nada a ver com isso, não é problema meu”. De fato, não é seu o problema, mas se você escreve e quer vender livros, é sim um problema seu! Lembrem-se que os críticos literários e a mídia nem sabem que a maioria de nós existe.


Quanto a mim, estou vivendo a literatura, não exatamente como gostaria, mas estou ainda aprendendo e fazendo o que gosto, promovê-la. Ajudar poetas e romancistas a subir os degraus é gratificante, e não preciso vestir uma fantasia para isso… é só ir lá e fazer e o “obrigado” que se segue… faz o meu dia ser muito feliz. O que eu quero, o que almejo é ver os meus escritos reconhecidos pela contribuição à literatura brasileira. Se não acontecer… apenas adubarei um canteiro de margaridas com as cinzas do meu corpo!


Nell Morato

31/07/2018

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